Marco Temporal: como furar a bolha quanto ao interesse por pautas indígenas

No terceiro conteúdo da série especial sobre o Marco Temporal, nós, do Lei.A, fomos entender o que dificulta a massificação das pautas indígenas quanto ao interesse da população em geral sobre a temática

Buscar informações no Google se tornou algo corriqueiro na vida da maioria das pessoas. Em poucos cliques, é possível chegar até o outro lado do planeta, conhecer pessoas, saber detalhes sobre lugares escondidos, levantar dados e ampliar o conhecimento sobre o assunto que for. Pensando nisso, Kauê Albert, de 18 anos, resolveu consultar na ferramenta virtual informações sobre sua própria aldeia, o povo Terena, para entender a forma como a comunidade era apresentada ao resto do mundo.  

“Encontrei só aquelas informações típicas do estereótipo que tentam nos fazer caber: rostos pintados, corpos nus, animais pousados nos braços, como se os povos indígenas se limitassem a isso e estivessem parados no tempo. Como as pessoas irão se sensibilizar com nossas lutas por direitos se sequer nos conhecem?”. Naquele dia, Kauê entendeu que a história dos povos originários no Brasil deveria ser contada pelas vozes deles próprios. “Resolvi me tornar um comunicador. E não sou o único. Nas aldeias de todo o Brasil podemos ver indígenas se organizando para contar suas versões dos fatos”, diz o estudante que hoje integra junto a outros doze jovens o coletivo Mídia Terena. 

Após detalhar o que é a tese jurídica do Marco Temporal e suas possíveis consequências e abordar o apagamento da cultura inígena no Brasil, nosso terceiro conteúdo da série especial do Observatório de Comunicação (Lei.A) mostra como os indígenas têm exercido o direito à comunicação no país. Também busca entender os motivos que fizeram e fazem o acesso à informação sobre os povos originários ser tão limitado no Brasil e pouco abordado pela imprensa nacional.

 Não leu os conteúdos anteriores da Série “Marco Temporal”? Clique aqui e aqui.


#conheça 

A aldeia Terena é uma comunidade situada em áreas do Pantanal e do Cerrado do Mato Grosso do Sul, considerada uma das maiores populações indígenas do país. Nas pequenas ilhas localizadas  entre  grandes latifúndios, vivem cerca de 18 mil indígenas e uma cultura diversa. 

Kauê cresceu assistindo ao pai, Alberto, atuando como liderança  do Conselho Terena e da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e desde cedo entende como é importante se envolver com as discussões e decisões relacionadas ao seu povo. “Quando fiz 15 anos, comecei a ajudar meu pai nas articulações. Fazia foto e vídeo dos encontros, ajudava a divulgar as informações do conselho para as aldeias, e assim fui tendo minhas primeiras experiências como comunicador”. 

Em junho de 2021, Kauê participou do Levante pela Terra, movimento de mobilização contra iniciativas legislativas, executivas e judiciárias que ameaçam a sobrevivência dos povos originários em Brasília. Lá, ele fez contato com o Mídia Índia, projeto de comunicação de grande alcance, direcionado só para pautas indígenas, o que lhe inspirou a juntar outros jovens de sua etnia e criar a Mídia Terena para divulgar o que se passa nas sete terras Terena. 

Jovens da comunidade Terena se organizaram para consolidar o Mídia Terena. Foto: Kauê Terena 


Na página do projeto, o grupo divulga eventos que acontecem nas aldeias, organizam lives, esclarecem projetos de lei e conceitos relacionados à luta indígena e tratam muitos outros assuntos de interesse do povo Terena. Tudo é feito sem recursos externos, usando equipamentos dos próprios jovens – a maioria das vezes, o celular. A experiência com o trabalho, de acordo com Kauê, já despertou nele a vontade de cursar jornalismo  para, mais tarde, fundar uma universidade de comunicação para pessoas indígenas. 

Conheça mais sobre o Mídia Terena


Comunicar para além das bolhas

Hamangaí Marcos é uma jovem baiana de 24 anos, pertencente ao povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, da Aldeia Caramuru Catarina Paraguaçu. Estudante universitária do curso de medicina veterinária pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Hamangaí atua com a pauta climática, é articuladora nacional do Engajamundo e já participou da COP24, em 2018, na Polônia. Uma das únicas presenças indígenas no evento. 

Foi durante a pandemia que Hamangí  descobriu ser, junto a tudo isso, uma comunicadora popular. “Meu povo passou muita dificuldade na quarentena, e precisei articular vídeos e informes para divulgar uma campanha de financiamento coletivo em apoio às pessoas mais vulnerabilizadas da minha comunidade. Pensamos na melhor forma de registrar e comunicar o que se passava no território, e tivemos uma boa resposta, com muitas doações. Isso só aconteceu porque conseguimos fazer chegar longe a realidade do meu povo e sensibilizamos as pessoas de fora para o que estava acontecendo aqui”, relembra. 

Segundo ela, quando menos percebeu, já acumulava uma extensa experiência como disseminadora de informações dos assuntos relacionados aos povos originários. 

Todas essas vivências fizeram com que ela fosse uma das quatro pessoas indígenas selecionadas para o Vozes da Floresta, projetos de bolsas-reportagem e mentorias para jovens comunicadores indígenas em parceria com os sites de notícia Eco e Colabora.  De acordo com Yael Berman, cofundadora do projeto, durante três meses, os selecionados desenvolveram reportagens sobre como a crise climática impacta seus territórios e sobre como reconstruir a vida na Terra de forma sustentável, por meio da sabedoria de seus povos. A partir daí, os jovens indígenas desenvolveram reportagens com o apoio de jornalistas e encontros com especialistas nas questões indígenas e socioambientais.

Confira as quatro reportagens desenvolvidas pelo projeto Vozes da Floresta aqui.


Ao refletir sobre os motivos que levam a mídia tradicional a falar tão pouco sobre as questões indígenas, Hamangaí acredita ser um problema estrutural, que começa na forma como as crianças brasileiras aprendem sobre o processo de colonização no Brasil, dando início a, uma falta de identificação entre os povos originários e o restante da sociedade. “A desinformação é o começo de tudo. Não compramos a luta de quem não conhecemos”. 


#monitore 

A mídia tradicional e as pautas indígenas

No Brasil, há décadas, não existe qualquer regulamentação quanto a cotas de espaços midiáticos ou concessões públicas para canais de TV ou rádio com o intuito de garantir aos povos indígenas seus próprios meios de comunicação de massa. Historicamente, no país, o que dita a formação dos grupos de comunicação são o poder econômico e a influência política. 

Uma das consequência desse vício de origem é um afunilamento das visões mostradas pelos grandes veículos de imprensa, reduzindo a possibilidade de informações absorvida pelos cidadãos e cidadãs sobre suas comunidades e sobre o mundo.


A jornalista Cristina Serra, com mais de trinta anos de experiência em pautas socioambientais, inclusive em veículos da mídia tradicional, entende que a resistência em pautar esses assuntos dentro das redações de jornais é um sintoma de como a sociedade não faz ideia da relevância dos povos originários para a existência do Brasil. Segundo ela, essa desinformação – de quem deveria informar – acaba por anular pautas básicas, como por exemplo, a demarcação de terras indígenas. 

Nesse contexto, o direito à comunicação é também um direito essencial, já que é tendo acesso às múltiplas mídias que a diversidade de povos e culturas  pode se manifestar. “Com as novas tecnologias vemos agora os olhares indígenas ganhando espaço. Já não é mais possível ignorar a luta desses povos, por mais difícil que seja a gente ver notícias relacionadas a eles acontecendo nos grandes jornais.”

O surgimento de cineastas, influenciadores, comunicadores populares, escritores e colunistas indígenas é um sinal disso. As articulações em diferentes frentes e mídias permitem que essas pessoas interajam com outras sociedades, dando aos meios de comunicação a função de espalhar a informação dentro de uma aldeia, entre aldeias e também diretamente das aldeias para o lado de fora, onde a vida urbana muitas vezes ignora estas presenças.  

Há esperança (se falarmos fora da bolha)

Haroldo Heleno, representante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), vê com otimismo o crescimento do alcance de conteúdos indígenas por meio de mídias alternativas criadas por eles. “Precisamos furar a bolha, tirar essa couraça de preconceito e desconhecimento que existe em torno dos povos indígenas, buscando também falar uma língua diferente da nossa. Nós também temos culpa nisso. Às vezes a gente é muito preso nos nossos guetos, nas nossas linguagens, no nosso mundo, e a gente sempre tá falando para nós mesmos, não é?”. 

Segundo ele, que coordena a Regional Leste do Cimi em Minas Gerais, uma contribuição importante desses coletivos para a luta indígena é a disputa de narrativa, mas ainda há muito caminho pela frente. “Está muito longe ainda do necessário, porque essa dívida histórica existe, esse racismo estruturado, enraizado na sociedade brasileira, existe”. 

Vídeo Haroldo 

#aja

Sem ouvir a voz das pessoas indígenas, torna-se ainda mais difícil garantir o direito ao território e tomar conhecimento das consequências de teses jurídicas como a do Marco Temporal. Pensando nisso, preparamos algumas dicas de influenciadores, coletivos, produtoras e mídias indígenas que podem te ajudar a conhecer mais o que essas pessoas têm a dizer.

Levante Indígena | o coletivo começou a desenvolver materiais em 2018, durante a cobertura do Acampamento Terra Livre. Hoje em dia já acumulam mais de 35 mil seguidores a divulgam notícias sobre aldeias do Brasil inteiro. 

Visibilidade indígena | o projeto fundado em 2017 é uma rede que tem como propósito amplificar vozes através da divulgação da arte contemporânea, do entretenimento, do cinema e das culturas dos povos indígenas. 

Mídia índia | na ativa desde 2017, o coletivo foi formado por dez jovens Guajajaras no Acampamento Terra Livre. A rede já conta com mais de 180 mil seguidores e hoje em dia é composta por colaboradores indígenas de todo o Brasil. 

Rede CineFlecha | é formada por coletivos indígenas e articuladores que trabalham com cinema, comunicação e antropologia. A Rede tem o objetivo de fomentar e divulgar as produções audiovisuais de coletivos indígenas e colaboradores e de conectar pessoas e coletivos de diferentes povos e lugares em torno da manifestação e criação de mundos possíveis.

Comunicação Kuery |  é um coletivo de comunicação Mbyá-Guarani que surgiu em 2013, a partir da necessidade, apontada pelas lideranças indígenas, de registrar a vida e o cotidiano nas aldeias impactadas pelas obras de duplicação da BR-116, no trecho entre Guaíba e Pelotas, no Rio Grande do Sul.

Nató Audiovisual | o grupo coordenado por mulheres se propõe a ser  porta voz dos povos indígenas da região do Baixo Tapajós, ocupando esse espaço para contar  histórias e lutas. O grupo atua dando oficinas e realizando produções audiovisuais, levando para diferentes lugares os conhecimentos tecnológicos para que jovens, em especial as mulheres, aprendam a manusear novas ferramentas e as utilizem como escudo na luta em defesa da sua ancestralidade e território.

Vídeo nas Aldeias | Criado em 1986, o projeto é precursor na área de produção audiovisual indígena no Brasil. O objetivo foi, desde o início, apoiar as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas identidades e seus patrimônios territoriais e culturais, por meio de recursos audiovisuais e de uma produção compartilhada com os povos indígenas.

Rádio Yandé | tem objetivo de ser educativa e cultural a fim de difundir a cultura indígena através da ótica tradicional, mas agregando a velocidade e o alcance da tecnologia e da internet.

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